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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Osuna e Estepa


Depois de viajarmos durante o Outono e o Inverno na província de Huelva,  resolvemos descobrir a província de Sevilha, cuja capital já tínhamos visitado no ano passado. 
A previsão do tempo era de chuva, ou tempestades, na zona ocidental da península. Por isso decidimos visitar as cidades de Osuna e Estepa,  por se situarem no extremo leste da província de Sevilha,  numa zona apelidada de "frigideira",  devido às altas temperaturas no Verão. Aqui pudemos encontrar um tempo mais ensolarado.  


Osuna é uma vila que, apesar da sua vocação agrícola,  rodeada por olivais, foi sede da casa dos duques de Osuna,  fundada pelo filho de Alfonso Téllez Girón. A cidade teve o seu esplendor durante o século XVI, com a fundação de uma universidade e da Colegiata de Sta Maria.  Estes dois edifícios estão abertos ao público. Fizemos uma visita guiada aos dois.

edifício da Universidade

Na Universidade destaca-se o pátio renascentista e o paraninfo, onde está instalado o actual auditório.  




Por outro lado,  na Colegiata,  ficámos espantados com a riqueza do Panteão dos Duques de Osuna, com duas capelas subterrâneas geminadas, decorada com seres míticos e fantásticos, tais como sagitários e dragões. De realçar o simbolismo do retábulo da capela de Nossa Senhora da Conceição.  


Também existem cinco pinturas de José de Ribera que aqui se estabeleceu ainda jovem.  

No restaurante Tetuan almoçámos um tapeo típico: alcachofras com tomate, salmorejo,  carne al jerez,  beringelas com mel, solomillo con roquefort e sobremesas (arroz doce e pudim).



Depois de almoço demos uma vista de olhos ao Palácio del Marquês de La Gomera, o melhor exemplo da arquitectura civil barroca em Osuna. Bebemos um café no belo pátio interior e continuámos a viagem pela história da cidade. 



Fizemos mais uma visita guiada,  desta vez ao Museu Arqueológico,  Torre del Água,  onde estão patentes raros relevos e outros artefactos das culturas iberas - tordetanos e tartesos.  


Depois visitámos o museu Municipal de Osuna,  não tão interessante como os anteriores,  mas ainda assim importante para conhecer o contexto sociocultural da cidade. A anunciada exposição sobre a série televisiva Guerra dos Tronos, de cujo cenário a cidade fez parte,  não passa de uma colecção de merchandising.




No entanto,  não poderão passar despercebidos os treze silos (tinajas) que serviam para conservar alimentos e que se encontram na bodega do edifício.


Ao entardecer,  subimos de novo a encosta da Colegiata,  para jantar no restaurante "Hospedaria del Monasterio". Comemos salmão grelhado e borrego recheado com pinhões e amêndoas. A sobremesa foi toucinho do céu, uma sobremesa típica da Andaluzia.


Já cansados, fomos para o Hostal Caballo Blanco, com quartos simples e pequenos,  mas económicos.  Como alternativa mais confortável, sugerimos o Palácio dos Marqueses de La Gomera ( mas é aconselhável reservar previamente).  
No dia seguinte demos um passeio pelos arredores da cidade. Seguindo sempre em frente pelo caminho da Buena Vista chegámos ao Coto las Canteras, uma construção invulgar,  à primeira vista enigmática, pela sua forma e relevos que o adornam.
É um maciço em arenito do miocénico,  parcialmente escavado, contendo várias esculturas e altos relevos evocativos da cultura tordetana.
É outro espaço de Osuna que foi cenário da série Guerra dos Tronos, funcionando também como museu e auditório.


A cerca de 1 km para leste,  encontramos a necrópole rupestre de las Cuevas: sepulcros colectivos da época visigótica escavados na rocha, atestam a ancestralidade da ocupação humana na região.


Regressando ao centro, visitámos ainda o convento de Nossa Senhora da Encarnação,  actualmente ocupado por monjas mercedárias de clausura. Uma irmã acompanhou-nos pelas várias dependências do cenobio.  O que mais gostámos foram os azulejos  no claustro no séc XVIII,  realizados no bairro de Triana,  com alusões à vida cortesã, onde se destacam desenhos de elefantes, girafas, leões, linces, veados e javalis,  revelando que a vida selvagem na Península Ibérica foi bem mais diversificada do que actualmente.



Por fim,  fizemos uma viagem de 31 kms pela campina de Sevilha até à vila fronteiriça de Estepa.


Estepa é uma cidade pequena, ocupada ao longo da história por tartesos,  iberos, romanos e visigodos, tendo sido palco de inúmeras batalhas entre cristãos e muçulmanos. Foram as marcas deixadas ao longo dos tempos por estes povos que criaram a riqueza cultural de Estepa,  declarada Conjunto Histórico Artístico em 1965.
De realçar que Estepa e Osuna foram povoados tordetanos e a sua importância deveu-se ao florescimento económico ocorrido depois da sua venda pela coroa a famílias italianas, genovesas e napolitanas, respectivamente, que encomendaram e trouxeram obras de arte de Itália para estas cidades,  o que possibilita ao visitante apreciar arte italiana do renascimento de bons mestres.
Assim que chegámos fomos à procura de um sítio para almoçar.  Encontrámos o Mesón El Bodegón,  onde provámos a especialidade solomillo con reducción de Pedro Ximenez con castañas. 



Caminhámos pelo centro,  passámos junto à Igreja del Carmen, com mármore branco e preto.


Depois deambulámos pelo casario branco, uma zona que corresponde à expansão do núcleo urbano nos séculos XVI a XIX. Em sítios mais altos conseguia avistar-se a campina.


Na Calle Santa Ana encontrámos a loja La Colchona, uma casa familiar que produz os doces tradicionais mantecados desde 1870. Os biscoitos tradicionais incluem os chamados roscones,  os mantecados com amêndoa, polvorones e as empanadilhas, ligeiramente fritas.  
O principal conjunto monumental da cidade encontra-se no Serro de S. Cristóbal. É preciso ganhar fôlego para lá chegar e,  pelo caminho, visitar os outros inúmeros pontos de interesse,  como igrejas, torres e museus.


Neste dia quase todos se encontravam fechados e havia muito pouca gente nas ruas. Mesmo assim não desanimámos. Continuámos a nossa caminhada,  tirámos algumas fotos, e parámos para descansar perto da Torre da Vitória, antes da subida final.



No cimo do Cerro, o conjunto monumental é constituído pela Igreja Paroquial de Sta Maria Maior,  hoje convertida em Museu de Arte Sacra,  cujo interesse recai sobre uma engenhosa solução arquitectónica de união entre os restos da mesquita árabe e a nave da Catedral medieval inacabada.


O convento de Sta Clara, onde se podem comprar variados doces confeccionados pelas monjas numa roda situada no pátio e visitar uma igreja setecentista com profusa decoração mural. Aqui comprámos pastelitos de batata e delicias de bizcocho.



Do balcón de Andaluzia obtemos uma vista magnífica sobre a campina e, para leste, sobre as serras que delimitam as províncias de Sevilha e Córdoba.


De volta à cidade renascentista,  corremos a Calle Mesones com vários palácios dos séculos XVI e XVII.


Destaca-se o Palácio de los Marqueses de Cerverales, com a Igreja anexa de Nossa Senhora da Assunção.  No final da Rua está a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios que já foi de Vera Cruz,  com origem templária.
Antes de irmos embora, fizemos uma paragem num bar da Avenida de Andalucía, onde petiscámos e escrevemos o nosso diário de viagem.














quarta-feira, 26 de abril de 2017

Road Trip Huelva: Palos, Moguer, El Rocío e Doñana

Parque Nacional de Doñana

Huelva é uma província espanhola, situada na comunidade autónoma da Andaluzia. Faz fronteira com Portugal e com as províncias de Badajoz, Sevilha e Cádiz. Destaca-se na história de Espanha por ter sido o lugar onde Colombo preparou a sua primeira viagem de descobrimento da América.
Palos de la Frontera e Moguer – que revisitámos desta vez – são localidades relacionadas com esta empresa. Foi do porto de Palos que, em Agosto de 1492, partiram as caravelas rumo ao Novo Mundo. Ao regressar, em Moguer, Colombo encontrou apoio da abadessa do Mosteiro de Santa Clara para apresentar ao Rei o seu projecto de novas viagens de exploração do continente americano.
É também em Huelva, que se situa o Parque Nacional de Doñana, considerado a maior reserva ecológica da Europa, perto da qual está a invulgar aldeia de El Rocío, um importante centro religioso e de actividades equestres.



Começámos na cidade branca de Moguer,  onde visitámos o Monasterio de Sta Clara, integrado no estilo mudéjar andaluz, importante pelos seus bonitos claustros, como por exemplo o claustrillo mudéjar.



O maior atractivo do convento é a silleria do coro baixo, em estilo nazarí (nome da última dinastia muçulmana do Reino de Granada).


São também interessantes os sepulcros colaterais ao altar-mor, um em estilo renascentista e outro em estilo gótico.




Nas ruas de Moguer estava a decorrer um mercado que recriava o ambiente de início do séc. XX, com bancas que vendiam produtos regionais,  como doces, queijos, morangos. Os vendedores estavam vestidos à época.




Fizemos uma última paragem em Palos de La Frontera,  em busca do Porto Histórico,  de onde partiram as naus Pinta, Niña e Sta Maria para o Novo Mundo.




Depois de algumas deambulações,  finalmente encontrámo-lo junto à Fontanilla, uma fonte do séc XIII,  onde as naus se abasteceram antes de partir.




No interior da vila encontrámos a típica arquitectura branca, com paredes caiadas e varandas de ferro forjado.




Almoçámos no restaurante El Paraíso,  onde provámos jamón (presunto) e revueltos (ovos mexidos) camponês e de bacalhau.





Era altura para iniciarmos a viagem para um dos locais mais emblemáticos da província de Huelva, El Rocío. Assim que chegámos,  fomos surpreendidos por um centro urbano com ruas em areia onde andar a cavalo é comum.




Dirigimo-nos para o santuário Blanca Paloma,  dedicado a Nossa Sra del Rocío,  com um altar mor reluzente,  de talha dourada,  onde decorriam vários baptizados.



O edifício pertence à arquitectura branca, com soluções cubistas. Junto à entrada principal, encontra-se o acesso ao Museu do Tesouro que,  surpreendentemente, é bem mais imaterial do que à partida podíamos esperar. Através de um audiovisual, de textos e fotos,  o museu conta a história de um pequeno oratório num cruzamento de caminhos que,  a partir do séc XVI, se torna alvo de interesse da aristocracia sevilhana em virtude do achamento da imagem de Nossa Senhora em cima de uma árvore.


A partir do séc XIX,  o local torna-se destino de peregrinação,  feita a pé,  de cavalo ou em carroças engalanadas que percorrem caminhos em desuso.
Durante vários dias,  os peregrinos vivem comunitariamente,  comendo e bailando ao som do flamenco e de tradicionais melodias de flauta.

La Hermandade del Rocío de Huelva en la venta "La Pava". Óleo sobre tela do pintor F. Domingo que ilustra a peregrinação a El Rocío. Quadro do Convento de Santa Clara, Moguer.

Por fim,  e passado 50 dias da Páscoa,  uma multidão reúne-se à volta da imagem aparecida e, à hora marcada,  parte em disputa de um pedacinho de andor, transportando a imagem pelas ruas da vila num ziguezaguiar de acotovelamentos que parece deixar a Santa indiferente.
O museu da vila e o posto de turismo estão ao abandono, pedimos um mapa da vila num pequeno balcão de informação de um Hostal. 
Para passar a noite escolhemos o tradicional hotel Toruño. Apesar de a aclamada arquitectura típica,  é no edifício do restaurante que encontramos um pátio interior com arcos, típico da decoração andaluz. Foi aqui que começámos o segundo dia,  com um agradável pequeno almoço.
Desta vez dirigimo-nos para o espaço natural de Doñana,  onde fomos descobrir os vários palácios construídos pela aristocracia na época em que Doñana era um atractivo couto de caça.
Actualmente estes palácios são ocupados pelos centros de visitantes do parque nacional de Doñana, albergando exposições sobre os recursos naturais do parque e a vida dos habitantes. 
Começámos pelo centro de habitantes de La Rocina,  onde vimos uma choça,  habitação tradicional da aldeia de El Rocío. Os telhados eram de colmo, as paredes eram caiadas de branco,  com uma área comum, e duas pequenas divisões constituídas pelo quarto e pela cozinha. No seu interior encontrava-se uma exposição com fotos, quadros, textos e ex-votos, sobre a lenda e devoção de Nossa Senhora de El Rocío.



"El Rocío Grande". Óleo sobre madeira de Diego L. Ramírez Triana

Daqui fizemos um percurso de 5 kms de carro até ao Palácio de Acebrón,  ladeado por um lago com um bonito cais de onde observámos algumas aves limícolas.





No interior encontrámos uma exposição sobre o Homem de Doñana,  explicando a simbiose estabelecida entre as comunidades locais e a natureza. Todos os recursos eram aproveitados para a subsistência,  através de actividades como pesca, apicultura,  criação de gado, marisqueio e caça.


Terminámos na antiga capela do palácio com um filme sobre as personalidades relacionadas com Doñana, como o pintor Goya.
Para terminar,  fomos para o centro de visitantes de El Acebuche,  para realizar uma visita ao interior da reserva integral do Parque Nacional de Doñana. 
Existem duas visitas para a zona Sul,  com partidas às oito e às quinze. As visitas duram 4 horas. São realizadas em camiões de todo o terreno que permitem aceder aos vários ecossistemas do Parque, tais como as dunas, marisma e pinhal.


Pelo caminho avistámos javalis, veados,  gamos e cervas. O lince ibérico é um dos principais ícones do parque,  apesar de não o termos visto.







No final da visita,  o camião percorreu cerca de 20 kms pela praia,  onde o guia nos foi indicando as várias aves costeiras, como os pilritos e as várias espécies de gaivotas.




Quando regressámos ao centro de visitantes,  fomos à cafetaria para descansar e repor energias. Pedimos uns bocadillos de queijo manchego, do qual ficámos fãs. 
Voltámos para El Rocio, já durante o crepúsculo, onde fizemos um último passeio ao longo da marisma e pelas ruas de areia,  agora mais sossegadas. Alguns percorriam-nas a cavalo,  outros reuniam-se à porta de bares onde dançavam ao som de flamenco ao vivo.




Nós contornamos a Blanca Paloma iluminada e fomos jantar ao restaurante El Toruño,  mesmo ao lado do Hotel.


lombo com presunto

peixe espada


morangos com chantilly



Rocío à noite: